Segunda-feira, 23 de Abril de 2007
Sempre me fez impressão o isolamento a que são votadas as pessoas mais idosas.
Não pelas dificuldades inerentes à idade, não por se fecharem em si mesmas, mas pela forma como são vistas por nós.
Esquecemo-nos com frequência que dentro de uma pele enrugada está um ser pensante.
E, com a melhor das intenções, alteramos a nossa maneira comum de agir, tratando-as com um carinho excessivo e vazio, ou com um distanciamento indiferente.
Os velhos são para nós, ainda que inconscientemente, quase como um animal de estimação de quem se gosta, a quem se faz uma festa, se dá um mimo, se alimenta e, pronto, missão cumprida.
Esquecemo-nos que eles são exactamente como cada um de nós, têm as mesmas necessidades emocionais, os mesmos desejos, carências e medos que apenas se habituaram a calar.
Quando sabemos do assumir de uma união entre um casal de idade avançada logo nos ocorrem pensamentos ou de censura ou de ternurinha bacoca.
O que não nos ocorre é que aqueles corpos frágeis e requebrados sintam ainda alguma pulsão sexual, algum desejo pecaminoso, alguma necessidade de serem tocados.
A idade não me assusta, o que me assusta é ser lentamente empurrado para a zona cinzenta de quem é visto como um ser não pensante.
Tentem não se esquecerem que só o corpo envelhece, lá dentro está preso o intelecto.
E isto é um aviso, porque se um dia eu for, não um senhor, um homem idoso e me vierem com pa-ta-ti-pa-ta-tás... vai soltar-se o verbo.



antídoto às 13:48 | link do post | comentar

15 comentários:
De antídoto a 24 de Abril de 2007 às 14:32
Parece que estamos todos de acordo, mas se assim é não há nada a temer, se lá chegarmos vamos estar porreirinhos da vida...


De cigana a 24 de Abril de 2007 às 14:13
Todos nós lá chegaremos, a menos que a vida seja mais curta, e seremos olhados da mesma forma, ou quem sabe até ainda pior, por absurdo que isso agora nos pareça.
Tenho o maior respeito e carinho pelos mais velhos, tenho uma família de grande longevidade e três tios que casaram na 3ª idade e puderam gozar o amor na velhice.
Isso comove-me e conforta-me. O amor não tem idade e a idade não tem forçosamente que equivaler a senilidade.


De Orquidea a 23 de Abril de 2007 às 22:05
Excelente post, bons vídeos :)


De Tuxa a 23 de Abril de 2007 às 22:03
Este comentario vai ser longo. O texto em baixo é uma cronica que retirei do Expresso na altura do dia dos namorados e parece-me muito apropriada ao teu post, o qual me disse muito e gostei imenso de ler.

"Queria ter maestria para homenagear o amor maduro. Aquele que surge tarde, quando a solidão já se instalou como companheira. Aquele que se renova a cada dia e faz com que 30 anos de casamento pareçam com um namoro curto e ansioso. Aquele rompe com rotinas instaladas, derruba instituições ennferrujadas, assusta. Aquele que ilumina vidas acinzentadas, aquece corredores frios, acalenta tremores que não se calam.

Quando era criança, achava as cenas de amor físico entre pessoas com mais de 50 anos grotescas e anti-estéticas. Hoje vejo doçura. Ternura. Perdida no meio do Babel há uma cena fugidia de um beijo maduro, com a voz agreste de Chavela Vargas por trás. Dois corpos em desassossego, atrasados na satisfação de algo que não se satisfaz. Num filme sobre as dificuldades de comunicação, é a prova de como dois seres comungam. Em silêncio.

É fácil enaltecer o amor no vigor da juventude, a explosão da plenitude dos desejos e das capacidades. O primeiro amor, cheio de promessas, recheado de esperança. Corpos perfeitos ansiando a completude. Belos.

O amor maduro corre o risco do grotesto visual, nada é firme ou forte. Tudo é frágil, receio e susto. Não há tempo para promessas e as saudades são presença constante. Nem que seja do tempo que já não se tem.

Admiro a coragem do amor maduro. Muitas vezes triste. Com o pretexto do comercial dia dos namorados, lembrei-me do amor maduro. Lembrei-me daqueles que não tem pejo de parecerem ridículos, que têm ousadia para tentar outra vez. Que têm humildade para arriscar. Para se dar ao desconhecido"

Bjs


De Isabel Neto a 23 de Abril de 2007 às 21:38
Olhar o outro com respeito e dignidade, independentemente da idade,( acontece o mesmo com as crianças)considerando a sua integridade e individualidade, é um caminho que culturalmente, penso, ainda temos que percorrer. Este post e estes vídeos são um exemplo de que já se vão dando os primeiros passos.
Antídoto, não páras de surpreender...


De teresalex a 23 de Abril de 2007 às 21:18
Que ternura de vídeo! Não nos podemos esquecer nunca, de que a sexualidade nos acompanha, desde o nascimento até à morte. A mentalidade de algumas pessoas é que não...


De antídoto a 23 de Abril de 2007 às 20:17
tangerina - Têm mais que dois.

mau feitio - Lá chegarás, a vida não é só feita de alfinetes de peito.

elipse - Podemos sempre melhorar a forma como vivemos o natural curso das coisas.


De Elipse a 23 de Abril de 2007 às 20:08
sou muito sensível a esta questão... e não há antídoto que inverta o natural curso das coisas;
numa sociedade que valoriza apenas aquilo que é bonito, robusto, elegante, rico, apetecível e efémero... e numa época em que todos os pais e mães querem ser da idade dos filhos e filhas (estando aí a raíz de muitas desautorizações, mas isso é outro assunto), os velhos escondem-se em pseudo-lares que são fundos de garagem, onde, sentados e silenciados, aguardam a morte.
Já vi este cenário. Já vivi este drama.
bom tema de discussão.


De mau feitio a 23 de Abril de 2007 às 19:16
nao reflicto no mesmo, por vezes.


De Tangerina a 23 de Abril de 2007 às 18:34
Os velhos têm dois problemas: o corpo (deles) e as cabeças (dos outros).

Magnífico, o segundo vídeo!

Bjo TanG :))


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