Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007
Wave
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Jobim está a tocar para mim. Está aqui sentado, à minha beira, a olhar-me de vez em quando, como se procurasse, a cada acorde que arranca das suas teclas de marfim, o meu sorriso.
Há muito que não o escutava. Há muito que me sentia desligada desta incomensurável sensibilidade e desta tão entranhante forma de estar. Há alturas assim, em que falhamos os nossos sonhos e os nossos compromissos pessoais em nome nem sabemos bem do quê. De coisas que na altura nos parecem mais provavéis, mais significativas. Mas é quando o escuro baixa nos nossos dias que tendemos a avaliar da veracidade dessas nossas opções. Nem sempre as nossas razões são plausíveis, nem sempre os nossos sonhos são justos. Normalmente, por definição, os sonhos não são justos. A vida também não. E é ela quem, tipicamente, nos cria limites e entraves que levamos uma vida toda a curar e a entender. Devia ser ilegal haver limites para os sonhos. Devia ser proibido racionalizar os nossos sonhos, adaptá-los à realidade, restringi-los a esse critério insultuoso que é a razoabilidade. Às vezes olho para trás e vejo-me cheia de garra, de guerra, de guelra no sangue. Vejo-me dona do mundo, imparável, implacável. Devo estar mesmo a envelhecer. Já não tenho o mesmo ritmo, o mesmo poder, a mesma vontade, a mesma determinação. Agora pauto-me por esse conceito miserável da razoabilidade. Não sou ou não faço porque não é razoável que o faça ou que o seja. Porque tudo e todos à minha volta, de repente, passaram a ser mais importantes ou mais pesados em termos de decisão. Já não sou só eu que conto, ja não me tenho só a mim. Agora sou eu e a minha vida, e as minhas responsabilidades e as minhas limitações e a minha imagem e a minha consciência e a minha paciência e a minha razoabilidade. Agora há livros que me ensinam a Ser e gente que me aconselha o que é melhor. Já não sou só eu e os meus livros ou os meus discos ou a minha poesia. Já não estou sozinha mas sinto-me muito mais só. Ando a dormir com livros dos outros, com músicas que não canto e esta infidelidade pesa-me por dentro como toneladas de aço que me afundam todos os dias. Quero os meus sonhos de volta. Intactos, de preferência. Com a mesma sede de viver, com os mesmos contornos, com as mesmas cores. Não quero ter  que  me  adaptar  ou ter  que adaptá-los. Não quero outras escolhas que não as primeiras, não quero outras filas que não as da frente.


(suspiro)



(socorro!!!!)

Sim Jobim, eu sei. "Fundamental é mesmo amar. É impossível ser feliz sozinho"

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Autora:  Luisa - Blog Fragilidades
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Música: Tom Jobim - Wave

Arquivado em:

antídoto às 00:09 | link do post | comentar

11 comentários:
De In a 31 de Agosto de 2007 às 11:52
Simplesmente magnífico!


De In a 31 de Agosto de 2007 às 11:53
Que pena ser um blog "privado"...


De antídoto a 31 de Agosto de 2007 às 17:54
Pois não é? Mas mantem-te calma ou a moça baba-se toda


De Luisa a 31 de Agosto de 2007 às 11:57
: )


Esqueceste-te da última frase, gajo....

(obrigada, In...)


De antídoto a 31 de Agosto de 2007 às 17:55
Sorry. Introduzida no lugar certo.


De Kruella a 2 de Setembro de 2007 às 19:14
A verdade é que todos queríamos preservar a inocência que um dia já tivemos...e com ela todos os nossos sonhos...os que nunca realizámos e os que tivémos que, como a senhora muito bem o diz, adaptar à realidade crua do percurso na vida.


De antídoto a 4 de Setembro de 2007 às 13:26
Utopia


De STAR a 2 de Setembro de 2007 às 22:52
Também concordo contigo: É impossível ser feliz sozinho", mas quando isso acontece, não porque queremos, mas porque as circunstâncias da vida, assim o exigem, só nos resta mesmo tentar ser feliz sózinho...


De antídoto a 4 de Setembro de 2007 às 13:28
O texto não é meu e quem o disse foi o sr. Jobim.
Felicidade é a soma de momentos e não concordo por aí além que só seja possível acompanhado.


De cegonha a 19 de Setembro de 2007 às 11:01
Claro que se pode ser feliz sozinho! Aliás se a felicidade não vier de dentro, nunca poderá ter origem numa "circunstância" exterior, leia-se o nosso companheiro. A pessoa que está connosco poderá eventualmente ter a capacidade de fazer vir ao de cima o melhor de nós...


De antídoto a 20 de Setembro de 2007 às 18:00
Completamente de acordo. A alegria também é uma questão de escolha...


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