Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007
Há muitos, muitos anos, no tempo em que ainda tudo era possível, havia um grupo de príncipes que, para além do convívio diário, se reunia quase todas as semanas em alegres festivais gastronómicos.
A vida encarregou-se de os separar, por diversos motivos e razões, mas dos confins da memória (e do meu disco rígido), fui buscar uma “receita para lanches” que um deles se deu ao trabalho de escrever e que reza assim:

Para que se possa oferecer um lanche a alegres convivas são necessários - imaginação (em doses industriais), víveres, alguns condimentos, bebidas, trabalho e jeito q.b.
Imaginação
Capacidade que existe em grandes doses quando somos crianças mas que diminui à passagem dos anos. Neste caso significa inovar na apresentação de algum “miminho” - pequeno petisco que, para um iniciado, poderá ser uma simples lata de mexilhões, anchovas ou espargos.
Víveres
Carne e/ou peixe, de preferência descongelada/o ou fresca/o – a descongelação rápida via imersão em água quente ou microondas, retira grande parte do sabor e qualidades ao produto. No caso da carne, convém ser do lado do osso ou “courato” – este tipo de carne é mais saborosa, mais barata e requer alguma mão-de-obra por parte dos convivas, existindo assim algum entretenimento extra. Fica sempre bem uma salsichinha fresca – ter em atenção que estas nunca podem ter estado congeladas, levar sal ou qualquer condimento.
No caso de peixe, convém ser um peixe “gordo”, do tipo Sardinha, Truta ou Dourada – são bastantes mais saborosos que os restantes.
Poderá também ser apresentado o fiel amigo, na forma de grelhado e muito bem regado com azeite e alho – neste caso demolhar o mesmo durante 24 horas e fazer duas mudas de água.
À parte do produto base, convém ter pão, queijo, enchidos, azeitonas e outros acepipes.
Condimentos
São a pedra de toque que faz a diferença entre o sucesso e / ou o fracasso de um lanche. Assim, é sempre necessária a presença do sal, pimenta, alho, piri-piri, massa de pimentão, ervas aromáticas para grelhados, mostarda, etc.
Bebidas
Esconder previamente todas as “reservas” e apresentar somente Murganheira ( bruto ou equivalente), cerveja ou água – ter sempre águas próprias para auxiliar a digestão (preferencialmente “Castelo” ou de igual potência).
Trabalho
Na preparação de um lanche todo o trabalho prévio conta. Passa por cortar o pão, o queijo, a preparação dos víveres, o lume, etc. – obviamente se este trabalho não for efectuado, os convivas têm que meter “mãos à obra”, embora o façam sob protesto (normalmente a fome é negra).
Jeito q.b.
Nasce com a pessoa – Dom com o qual, alguns, poucos, foram contemplados.
Notas:
A bem da sanidade mental tentar, a todo o custo, evitar oferecer um lanche.
Mas se tal não for possível deve:
Nunca esquecer a necessária louça e ferramentas de trabalho, bem como, se o lanche se realizar no Inverno, alguma lenha para a lareira.
Não esqueça que os convivas sentados comem menos.
Ter o necessário para o lanche junto do local do mesmo, caso contrário, o anfitrião será obrigado a proceder como o elevador da Nazaré.
Um lanche é um lanche e nunca devem ser oferecidos pratos muito elaborados, do género “refeição”. O lanche perfeito deve ser feito à base de grelhados.
Havendo crianças ou mulheres — o que deve acontecer só em ultima instância — são muito apreciadas pelas mesmas, coxas de galinha, salsichas frescas ou febras.
Havendo crianças, deve fornecer aos restantes convivas tampões para os ouvidos, ou em alternativa, oferecer às criancinhas um sumo no qual foram previamente dissolvidos três Valium 5 ou Xanax.
No caso de cães, eles comem de tudo.
Evitar as conversas sobre assuntos polémicos ou escaldantes como política, futebol, homossexualidade ou racismo – só contribui para aumentar a fome e o mau feitio dos convivas.
Nunca desmoralizar com as “bocas” dos convivas – eles estão ali só para comer (que nem umas bestas) e para dizer mal de tudo (desde a organização à comida).
No entanto, e como “a vingança é um prato que se serve frio”, todas as “bocas” devem ser memorizadas para que se possam retribuir os “mimos”, devidamente aplicados, quando o próximo lanche for oferecido em casa de um dos outros convivas.
Incitar, discretamente, à realização de lanches nas casas dos outros.

Ai que saudades, ai, ai…


antídoto às 10:33 | link do post | comentar

6 comentários:
De Luísa a 25 de Janeiro de 2007 às 11:31
: ))

gostei da tua observação...
Esses jantares são fantásticos.


De Dr.ª High Heels a 24 de Janeiro de 2007 às 23:34
Não há lanches lá no consultório, fica já a saber!

(ai ai que saudades do calorzinho!)


De Maria a 24 de Janeiro de 2007 às 19:07
Boa Antídoto é isso mesmo.. tens toda a razão.. concordo plenamente.. uiuiui.. k bom no kentinho ;)
Fikem sempre bem, cumprimentos e larguras :)


De antídoto a 24 de Janeiro de 2007 às 18:55
e eu gosto mais de jantares que resultem em pequenos-almoços...


De marta a 24 de Janeiro de 2007 às 18:34
Gosto mais de almoços que peguem com os jantares.


De Mize a 24 de Janeiro de 2007 às 11:28
bom.. muito bom... então com um Murganheira Bruto a acompanhar.. hummm


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