Terça-feira, 26 de Junho de 2007
A minha avó era um espectáculo.
Praticamente foi ela que me criou e acabou, depois, por viver comigo nos últimos anos de vida.
Era uma fonte inesgotável de estórias do passado familiar.
Nunca lhe poderei pagar devidamente a educação e o amor que me deu nos meus tenros anos. Nem esqueço os bifes a nadar em molho, as montanhas de batata frita, o arroz doce, as 'farófias', as ‘sopas de cavalo cansado’ e os fins de dia a ouvir os “Parodiantes de Lisboa” ou o “Quando o telefone toca”.
Uma das suas características mais marcantes era o ser perita em explosivos caseiros, o que para um miúdo como eu significava uma fonte inesgotável de sonho, fantasia e... medo.
Entre outras estórias menores, lembro-me da vez em que, verificando que o forno a gás se tinha apagado, chegou o nariz ao mesmo e riscou um fósforo.
A explosão abanou todo o prédio e fomos dar com ela sentada no chão, cabelo completamente chamuscado, a repetir entre-dentes “devo ter feito alguma coisa mal, devo ter feito alguma coisa mal”...
Ou daquela outra em que perdeu a ’piriquêta’ da panela de pressão e resolveu tapar a saída do vapor com uma rolha de cortiça.
A violência do rebentamento amolgou a velha panela de aço e as costas da minha avó amolgaram a porta do frigorífico.
Sinto falta desses tempos em que o deixá-la sozinha por dez minutos era uma aventura cheia de suspense e perigos desconhecidos.
Chamava-se Maria de Graça e eu estranhava que os seus sete irmãos a tratassem por Conceição.
Posta a questão lá me explicaram que os meus bisavós não tinham dinheiro para a registar, pelo que o padre o fez gratuitamente mas, idiota, trocou o segundo nome, retirando o 'da Conceição' e pondo em seu lugar o 'de Graça' que, em toda a sua vida, apenas existiu no papel.
Saudades de ti, avó.


antídoto às 15:54 | link do post | comentar

11 comentários:
De AEnima a 1 de Julho de 2007 às 04:39
Demais essa tua avozinha, pah! :) Uma fofa .


De antídoto a 28 de Junho de 2007 às 16:29
É a minha principal caracteristica


De Flor a 28 de Junho de 2007 às 15:07
Marcadores para este post: sou boa pessoa mas tenho "vergonhinha" em assumir.
Queiram lá ver que o moço também é assim a modos que envergonhado...


De antídoto a 28 de Junho de 2007 às 12:06
Acalmem-se lá, para dizer toda a verdade, a velhinha era chata todos os dias.
Lembrei-me dela e bateu uma saudadinha, só isso...


De issima a 28 de Junho de 2007 às 11:40
Mania de me deixares de lagrimita no olho logo de manhã, pá!! Estupido!!!!!!


De Orquidea a 28 de Junho de 2007 às 00:57
Antídoto sem a little drop of poison :)
Beijos


De deKruella a 27 de Junho de 2007 às 22:14
Que boa homenagem que lhe prestaste ao partilhares as tuas recordações...tb tive uma avó que morou comigo nos últimos tempos...também ela contava coisas que eu gostava de ouvir...mas nunca ela me quis quando eu era mais nova e dela jamais me lembro de algum tipo de carinho! Que sorte que tu tiveste!


De Mize a 27 de Junho de 2007 às 15:25
Só alguém muito especial deixa memórias dessas e "molda" outro ser especial. Bem haja!!


De Inês a 27 de Junho de 2007 às 01:28
São tão boas essas memórias. Que seriamos nós sem elas?


De teresalex a 26 de Junho de 2007 às 22:33
O teu post lembrou-me o meu pai e o meu irmão, de quem tenho tantas saudades....


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