Quinta-feira, 22 de Março de 2007
A enfermeira ajeitou-lhe o lençol e abandonou o quarto, depois de lhe ter lido as declarações de monsenhor António Cañizares, cardeal arcebispo de Toledo e vice-presidente da Conferência Episcopal Espanhola, sobre o facto de ter sido desligado o ventilador que há dez anos mantinha viva Inmaculada Echevarría, de 51 anos, sofrendo de distrofia muscular progressiva.
As palavras ecoam-lhe na mente: "Foi um suicídio assistido ou eutanásia. Aos pacientes com doenças incuráveis ou degenerativas devem ser extremados os cuidados, acompanhá-los, estar ao seu lado com amor, ajudá-los a descobrir o sentido da dor e do sofrimento, mostrar-lhes a solicitude humana e cristã, levantar o seu ânimo, a sua fé e a sua esperança".
Rodou o olhar pelo espaço exíguo onde se encontra há já seis anos, reconhecendo cada racha, cada mancha nas paredes, ouvindo o som monocórdico do aparelho que o mantém a respirar.
É este o seu universo, o seu único exercício, diário e permanente.
Há muito que aceitou o seu destino, já não sente revolta, depressão ou auto-comiseração, mas a raiva e o desalento são suas companheiras de cama e as palavras do representante da igreja católica tinham funcionado como gasolina no lume.
Quem se julgam estes senhores para, do alto do seu poleiro, se arrogarem o direito de decidir da existência dos outros? Sim, porque ele existe, não vive. E transborda de um quase ódio pela impossibilidade absoluta de poder decidir pelo fim do nada que possui.
Em todo o mundo se matam pessoas em guerras fratricidas, morre-se de fome, de doença, de acidentes de todo o género, de suicídios... e ele condenado à pior de todas as mortes, a mais dolorosa e inaceitável, a não vida.
Quem lhe dera ter nascido cem anos mais cedo, antes de surgir a maldita tecnologia que empurra o ar para os seus pulmões.
“Ajudá-los a descobrir o sentido da dor e do sofrimento, mostrar-lhes a solicitude humana e cristã, levantar o seu ânimo, a sua fé e a sua esperança”?!
Padreca idiota, não há nenhum sentido na dor e no sofrimento.
E se desde sempre acreditou que nada há para além da vida, que tudo acaba com ela, como pode ter ânimo, fé ou esperança?
Cerrou os olhos com força, bloqueando todos os pensamentos, única forma de suportar a amargura imensa de saber que terá de ficar assim ainda anos... até poder descansar.
Maximilian Hecker - Dying


antídoto às 20:43 | link do post | comentar

8 comentários:
De Isabel Neto a 24 de Março de 2007 às 21:09
Deu-me que pensar este post:
Na capacidade de resistência do ser humano.
Na falta de caridade/humanismo implícitos em doutrinas que deixam muito a desejar quando são chamadas a "atender" os reais problemas dos indivíduos (fiéis ou não)e das sociedades em que se inserem.
Na apatia das forças da ordem social estabelecida, regulamentada,tão organizada e orientada para o grupo que deixa de "entender" o indivíduo, massificando soluções.
Na evolução da espécie, no seu pior!

Nota à margem: Dá que pensar também, a sua capacidade de intervenção. Porque eu acredito que se pode mudar o mundo, intervindo assim, no micro espaço em que se circunscrevem as nossas influências, sejam elas quais forem, como forem, quando forem.
Bem haja, por isso.


De Kruella a 24 de Março de 2007 às 19:09
Não comentarei este post mas tenho que dizer uma coisa...
Entrei na sua página há algum tempo atrás por acaso. Comecei a comentar mas confesso que não me dei ao trabalho de ver textos anteriores! E a pouco e pouco vou sendo "presenteada" com textos muitos bons! E é tão agradável quando isto acontece!
Obrigada!


De antídoto a 23 de Março de 2007 às 18:49
Curiosa - ...

Mizé - Pois é, mas muitas vezes resulta da nossa indiferença e passividade por tudo o que não nos diz directamente respeito.

Marisa - A música também me foi dada a conhecer há bem pouco tempo.

Ailéh - ...

Alfacinha - Não é para doer, é para fazer pensar...


De Maria Alfacinha a 23 de Março de 2007 às 16:45
Doeu.
Doeu mesmo...


De ailéh a 23 de Março de 2007 às 14:44
estive e li, por razões óbvias não comento.
gostei da música também nao conhecia


De marisa a 23 de Março de 2007 às 12:45
Meu deus que música linda! infelizmente não conhecia, mas fiquei fascinada.
O texto, muito intenso tambem, quase se sente a dor da pessoa, quase nos dói saber que alguem, tantos 'alguens', sofrem assim em nome de uma lei proferida por quem espera nunca ter de passar por semelhante martirio.
Como costumo dizer, não é preciso sofrer tanto para se morrer miseravelmente.
Quero dizer que este texto me tocou imenso, está divinalmente escrito e gosto imenso do blog, parabens.
Baci.


De Mize a 23 de Março de 2007 às 10:35
"Há duas maneiras de viver a vida: Uma, é como se nada fosse milagre. A outra, como se tudo fosse milagre." - Albert Einstein

O Génio esqueceu-se dos idiotas que povoam a nossa existência.


De Curiosa a 22 de Março de 2007 às 21:46
Uma amiga minha esteve 13 anos numa cama do S.José na mesma situação.
Um dia já em desespero total fez um pedido ao governo: "Quero ir para Cuba". Ou Cuba na esperança de melhorar como tantos outros lá tratados, ou recuso-me a olhar mais para este tecto nojento!!!
O pedido foi recusado.
Dias mais tarde recebi um telefonema. Tinha acabado de morrer.
Tenho a certeza absoluta que era aquilo que ela mais desejava!!! :(


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