Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

 

Vi-a entrar. Uns vinte anos, alta, loura e a respirar saúde. Na mão uma pasta azul com letras douradas onde se lia “Instituto Politécnico de … - Escola Superior de Educação”.
Chegou ao balcão, estendeu uma nota e, com uma voz quente e sensual, pediu - "Destroque-me pra cigarros faxavor ”.
 
Desde o início do meu percurso escolar até hoje, o país teve 30 ministros da educação, sendo que 27 deles exerceram funções após a revolução, ou seja, nos últimos 35 anos.
Se não me falha nada, tivemos o ensino primário, da primeira à quarta classe, e secundário, do 1º ao sétimo ano dos liceus.
Depois acrescentaram um ano de serviço cívico, posteriormente substituído pelo ano propedêutico.
Após o 25 de Abril, o secundário foi dividido em ciclo preparatório (2 anos) curso geral (3 anos) e curso complementar (2 anos), aparecendo depois o 12º ano.
Agora temos o ensino unificado, do 1º ao 12º anos.
Tudo isto com exames obrigatórios, sem exames obrigatórios, com exames obrigatórios, sem exames obrigatórios, com chumbos por faltas, sem controle de faltas, com quase impossibilidade de chumbos, etc, etc.
Todas estas “reformas do ensino” foram acompanhadas pelas novas teorias educativas do ‘não toquem no meu menino’, que se podem resumir por menos exigência, menos disciplina, menos trabalho, pouca exigência, pouca disciplina, pouco trabalho, nenhuma exigência, nenhuma disciplina, nenhum trabalho, ou seja, nenhuma educação.
 

E onde é que isto nos fez chegar? Ao ponto em que alguém que diz “destroque-me pra cigarros faxavor ” pode vir a ser professor(a) das nossas crianças.

 

 


Arquivado em: ,

antídoto às 16:09 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

A Joana, em resposta à pergunta em aberto no último post, mandou-me este texto fantástico de José Luís Peixoto.

 

Um rapaz que eu conheço

 

Eu conheço um rapaz, mais ou menos da minha idade, que sabe ser feliz. Ninguém tem explicação para esta condição altamente fora do normal, altamente improvável. Ele tem três irmãos e todos eles são pessoas comuns, iguais a milhões, biliões de outras. Quanto estão zangados, dizem palavras de que se arrependem. Quando estão desiludidos, vê-se nos seus rostos. Quando estão muito tristes, choram. Já o rapaz que sabe ser feliz nunca diz palavras de que se arrepende, nunca se vê o desalento no seu rosto, nunca chora. O seu rosto é o seu sorriso. Quando chega, sorri. Quando se despede, sorri. Fica muito tempo a ouvir as pessoas que querem falar com ele. Há muitas pessoas que gostam de falar com ele. Ele ouve nos momentos em que as pessoas querem que ele ouça. Ele faz perguntas nos momentos em que as pessoas querem sentir que ele está interessado. Ele sorri durante o tempo todo da conversa. Muitas vezes, as pessoas contam-lhe histórias tristes. Contam-lhe coisas más que fizeram, porque sabem que ele entenderá. Contam-lhe histórias de coisas que aconteceram: maldades e coisas más. Ele ouve porque gosta verdadeiramente de ouvir. Ele faz perguntas porque sente curiosidade verdadeiramente. Ele sorri sempre. Quando as pessoas lhe falam de coisas más, ele não sorri, mas ele sorri. Os seus lábios não têm a forma de um sorriso, mas os seus olhos sorriem. Os seus olhos não sorriem, mas têm um brilho que é um sorriso. Quando estão muitas pessoas e ele chega, passa pouco tempo e todos sorriem com ele. Os mais amargos sorriem. Os mais invejosos sorriem. Os mais perversos sorriem. Os funcionários de repartições, os poetas, os advogados sorriem. Quando se despede, sorri e o seu sorriso permanece no rosto das pessoas durante o resto do dia. Contam-se muitas histórias sobre ele. Diz-se que, quando ele põe as mãos em concha, cresce uma bola de luz dentro das suas mãos. Diz-se que, quando ninguém está a ver, ele entorna essa luz sobre a cabeça das pessoas. Eu não duvido dessas histórias. Nunca vi essa bola de luz, nunca ninguém a viu, mas acredito. O seu sorriso é a sombra da sua alegria. Quando ele sorri, existe no seu interior uma alegria que é o sol. Quando ele sorri, o sol inteiro está apertado, quase a explodir, dentro dele. O seu sorriso tem muitas formas. É terno, entusiasmado, meigo, vivo, brando. As formas do seu sorriso são as formas exactas da alegria que existe dentro dele. Ele é sincero. Sabe ser feliz e, por isso, ele é feliz.

Contam-se muitas histórias sobre a origem da sua felicidade. Ninguém sabe qual é a verdadeira. Cada pessoa conta uma história diferente. Às vezes, as pessoas discutem sobre isso. Nunca chegam a uma conclusão. Se uns dizem que foi um vírus, outros dizem que nasceu assim. Às vezes, as pessoas zangam-se umas com as outras por causa disso. Às vezes, deixam de falar umas com as outras por causa disso. Fazem as pazes no momento em que voltam a encontrar o rapaz. Se uma dessas pessoas encontrar o rapaz de manhã, se a outra encontrar o rapaz à tarde, ficam com um sorriso grande para o resto do dia. Se depois disso se encontrarem, fazem as pazes. Uma das pessoas ficará a repetir desculpas para a outra que, ao mesmo tempo, repetirá desculpas também. Poucos horas depois de nascer, quando a mãe estava na maternidade, com os cabelos sobre a almofada, sem força, quando o pai estava de pé ao lado da cama, quando a enfermeira chegou com ele ao colo, quando a mãe o aceitou nos braços e fez com os lábios a forma de beijinhos, quando o pai se inclinou para o ver melhor, quando os pais o consideraram seu pela primeira vez, a mãe disse: Olha, parece que está a sorrir. Alguém me contou que, depois dessa hora, os seus pais sorriram durante o resto do dia. As pessoas que eles encontram sorriram também durante o resto do dia, assim como sorriram as pessoas que essas pessoas encontram. Aquele sorriso alastrou-se pelo mundo como se o varresse e, na última hora desse dia, todas as pessoas vivas sorriram. Ninguém sabe ao certo se essa história é verdadeira, mas não deixa de ser uma boa história.
A verdade absoluta é que esse rapaz que eu conheço sabe ser feliz. Já houve gente a pedir-lhe que explicasse a felicidade. Ele sorriu e não soube responder. Aqueles que lhe perguntaram sorriram e aceitaram essa resposta. Talvez ponha as mãos em concha, talvez cresça uma bola de luz dentro das suas mãos. Porque não? Eu e toda a gente que o conhece muitas vezes deixámos que as nossas mãos ficassem em concha durante momentos. Não resultou. Eu e toda a gente que conhece esse rapaz achámos que não conseguíamos. Duvidámos. Sofremos por duvidar. Depois, entendemos. As mãos em concha, uma bola de luz a crescer dentro das mãos. Faltava o mais importante. Eu e todos, em algum momento das nossas vidas percebemos que não basta formar uma concha com as mãos, é preciso sorrir. Depois, se olharmos bem, veremos como cresce uma bola de luz. Natural, incandescente, limpa. Quando ninguém está a ver, podemos entorná-la sobre a cabeça de alguém. O seu sorriso ensinar-nos-à sorrir ainda mais.

 

José Luís Peixoto, HISTÓRIAS RARÍSSIMAS, pela Associação Nacional de
Doenças Mentais e Raras

 



antídoto às 18:47 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Quinta-feira, final de tarde, o trânsito faz-se lentamente no centro da cidade, num pára-arranca continuado.

De repente um vulto atravessa-se à frente do carro e, antes que me dê conta, uma jovem deficiente mental abre a porta do lado direito, senta-se e, sem olhar para mim, ordena: - Leva-me à minha rua!

Olho-a, entre perplexo e divertido, deve ter vinte e poucos anos e continua a fixar o pára-brisas.

- Sabes onde é a tua rua?

- Sei, vai por aí!

E fomos. Circulei por ruas desconhecidas, seguindo as indicações dela.

Notando que a fitava, olhou-me uma única vez nos olhos e 'descansou-me' - Não tenhas medo que eu não faço mal a ninguém.

Não tinha, estava a gozar aquele momento surpreendente e a gostar.

Não se enganou na indicações, em menos de 10 minutos deixei-a em frente de um edifício com bom aspecto, despedindo-se com um "boa semana".

Assim que se fechou a porta, a criança de 5 anos que ia atrás, até aí silenciosa, perguntou: - Quem era?

Nem pensei na resposta, saiu-me "uma pessoa deficiente".

- O que é uma pessoa deficiente?

(...)

 

 

Música: Bobby McFerrin - Dont Worry - Be Happy



antídoto às 16:20 | link do post | comentar | ver comentários (4)

coisas ditas

Case Study: DSK

Fui raptado por extra-ter...

3 em 1 - Exemplos do que ...

Música pela paz

Ainda bem que não somos p...

Destroque-me

O que é uma pessoa defici...

Leva-me à minha rua

Inversão de valores

Tarde de mais

e arquivadas

Julho 2011

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape
blogs SAPO
subscrever feeds