Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007
O QUE É O PARAÍSO?
é um lugar onde:
- a polícia é britânica
- os cozinheiros são franceses
- os mecânicos são alemães
- os amantes são portugueses
- e tudo é organizado pelos suíços

O QUE É O INFERNO?
é um lugar onde:
- a polícia é alemã
- os cozinheiros são ingleses
- os mecânicos são franceses
- os amantes são suíços
- e tudo é organizado pelos portugueses

antídoto às 21:25 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007
Marcelo Rebelo de Sousa criou um site contra o aborto, onde apresenta as suas razões.

Os gatos fedorentos responderam de uma forma que dispensa quaisquer comentários, porque está lá tudo o que me faz ir votar SIM.


antídoto às 22:57 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Notícia de hoje, no JN

Atenta ao próximo Dia dos Namorados, celebrado a 14 de Fevereiro, uma empresa chinesa decidiu criar uma opção de presente criativa e ousada o preservativo musical.
Mas não é o contraceptivo que canta. O que os publicitários da Ondo Creation, de Hong Kong, fizeram foi criar um pacote com preservativos com diversos sabores (como menta, morango, chocolate e banana) acompanhados por um CD com músicas insinuantes.
"Criamos um ambiente para os amantes que queiram ter uma experiência diferente", disse Victor Tsang, executivo da Ondo Creation.
A empresa ganhou já prémios internacionais por ter "revitalizado a imagem dos contraceptivos", que deixaram de ser vendidos na farmácia e passaram a ver adquiridos em "locais fashion".
"A música começa lenta, depois fica média e vai acelerando até ficar lenta outra vez", afirma Jack Wong, que ajudou em toda a produção do CD.
A banda sonora do amor dura 18 minutos. "Agora, se é tempo de mais ou de menos, vai depender de cada um", confessou o mesmo profissional.

Não é uma ideia genial??!!
Um presente criativo e ousado, sem dúvida absolutissimamente nenhuma, nem eu me lembraria de tal coisa.
OK, é uma pena não ser a camisinha a cantar, mas mesmo assim é muito apelativo, não acham?
Notem como inovaram até nos sabores, apesar de eu achar, sinceramente, que falta ali a baunilha.
E reparem na génese da ideia, eles quiseram criar um ambiente para amantes que querem experiências diferentes. UAUU!
Caramba, eu nunca pinei com música ambiente, estou excitado e ansioso por ter essa experiência única e tão p’rá frente. Ai, desculpem o ‘pinei’, foi do entusiasmo.
Mas não é tudo, os senhores, num rasgo de inteligência criativa, começam com música “lenta, depois fica média e vai acelerando até ficar lenta outra vez".
Vocês já perceberam bem o que é que isto representa??!! É um verdadeiro manual do bem fo… ops… lá me ia descaindo, queria dizer que é um verdadeiro manual do bem cavalgar em toda a sela, se é que me entendem (xi, isto não me está a sair bem). Enfim, é uma verdadeira escola, como diria a minha avó.
As minhas amigas passam a vida a queixar-se dos namorados mas agora fica o problema resolvido, é só pôr a música e seguir o compasso… durante dezoito minutos. N’é fantástico, mulheres?
Assim, de repente, assaltam-me tantas ideias complementares, vocês ponham-se bem nisto:
1- preservativos com lanche (come-se e no intervalo… come-se);
2- preservativos com champô (se correr mal há sempre o prazer do banho);
3- preservativos com mapa dos becos e parques da cidade (para os menos abonados);
4- preservativos com vale brinde (é só trocar por parceira(o) nos locais próprios).

Opá, com estas ideias fantásticas eu ainda vou passar a gostar de preservativos, ai vou, vou!

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antídoto às 16:40 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007
Estamos sempre a queixar-nos de que isto e aquilo está mal, mas raramente tomamos iniciativas para melhorar seja o que for.
Esta é uma iniciativa destinada aos idosos e/ou deficientes. Não se esqueçam que quase todos nós faremos parte, pelo menos, de uma dessas categorias.
Deixem-te de inércias, assinem e passem aos vossos contactos.


Já assinou a Petição pela Acessibilidade Electrónica Portuguesa?
Foi lançada, no dia 3 de Dezembro, uma petição electrónica à assembleiada república, a qual tem como objectivo que a Internet, o software, o Multibanco, a televisão, as comunicações móveis e máquinas de venda de produtos e serviços, sejam acessíveis a pessoas deficientes e idosas, cerca de 20% da população portuguesa.
A aprovação de tais medidas conduziria a uma substancial melhoria da qualidade de vida, tanto profissional como pessoal desta grande fatia da população. Note-se que os meios electrónicos estão cada vez mais presentes na nossa vida e que são cada vez mais importantes. Por isso, é imperioso que todas as pessoas possam usufruir deles, o que não acontece actualmente. Se é cidadão português maior de idade, colabore com a acessibilidade e com mais de dois milhões de portugueses, assinando esta petição até dia 31 de Janeiro de 2007 em: http://www.lerparaver.com/acessibilidade
Ajude-nos a divulgar esta petição pelos meios que achar mais conveniente! Se é jornalista ou responsável por um site na Internet, ou pretende saber mais formas de divulgação, entre no link abaixo:
http://www.lerparaver.com/acessibilidade_divulgar
Desde já agradecemos.


antídoto às 11:25 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007
Quarta-feira, 18 horas
Saio do trabalho muito bem dispostinho, prevejo jantar um bitoque e depois, talvez, um cinema.
Chego ao pé do carro e... Merda, um furo!
Isto é como quando se me acabam os agrafos, calha-me sempre a mim (se bem que só eu uso o agrafador).
Vai de tirar o macaco, a chave de rodas, o pneu suplente, ver que o carro ao lado está tão chegado que mal caibo entre o espaço que resta e usar veementemente o calão todo que aprendi, ao perceber que os parafusos estão tão apertados que vou suar as estopinhas para conseguir mudar a roda.
Quarta-feira, 18 horas e 45 minutos
Mando o pneu furado para a mala do carro, limpo as calças com os pulsos porque as mãos estão mais negras que o meu estado de espírito, dirijo-me a um café a abarrotar de gente para as lavar e, ao olhar-me ao espelho, percebo a linda figura que fiz, tenho um vinco de sujidade (deixemo-nos de maneirismos, era merda mesmo) desde a sobrancelha ao canto da boca.
Quarta-feira, 19 horas
Travo a fundo, à frente da casa dos pneus, grito para o rapaz que está a fechar a porta para ‘aguentar os cavais’ e entrego-lhe o pneu para remendar. Pergunto se não preciso deixar o nome, mas o moço está cheio de pressa e diz que não é necessário.
Sexta-feira, 17 horas e 15 minutos
Entro na casa dos pneus.
- Boa tarde, venho buscar um pneu que deixei cá na quarta-feira.
- Nome?
- Disseram-me que não era preciso deixar o nome.
- E agora como é que quer que a gente descubra a roda? Responde o senhor com maus modos.
- Ó meu amigo, não seja por isso, levo até um novo. E, já agora, chame-me lá o gerente.
Vem o gerente, muito solícito, conversa-se, percebe-se que o rapazinho que me recebeu a roda não está lá hoje, revolvem-se dezenas de pneus – É este? Não. É este, não – e, 40 minutos depois, já eu bufava de impaciência, lá me encontram o dito cujo.
- Olha, afinal não tinha furo.
- Não?! Admiro-me eu.
- Não. Encheu-se, não se encontrou nada, ficou dois dias e não perdeu ar.
- OK, devo alguma coisa?
- Nada, vizinho, tenha um bom fim-de-semana.
- Igualmente.
Sexta-feira, 18 horas
Saí de lá com duas interrogações em mente:
1ª - Quem foi o filho da puta que se entreteve a despejar-me o pneu?
2ª - O gerente é meu vizinho??!


antídoto às 18:56 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Passamos a vida a resmungar contra situações com que nos deparamos no dia a dia e que, se pensarmos bem, não são assim tão graves ou importantes.
Devíamos aprender a relativizar as coisas e a não nos enchermos de stress com pequenos problemas e/ou pequenas pessoas que nos deviam ser indiferentes, porque há sempre questões que, essas sim, são verdadeiramente lixadas.
Deixo abaixo alguns exemplos.

Bom: Decides não ter mais filhos;
Mau: Não encontras a pílula anticoncepcional em lado nenhum
Fodido: É a tua filha de 12 anos que as anda a usar.

Bom: O teu filho foi estudar em casa de amigos
Mau: Ao arrumares o quarto dele encontras uma série de vídeos pornográficos
Fodido: Tu apareces neles

Bom: O teu filho teve finalmente a sua primeira experiência sexual
Mau: Anda a sair com a vizinha da frente
Fodido: Tu também

Bom: O teu marido percebe de roupas femininas
Mau: Anda a usar as tuas
Fodido: Ficam-lhe melhor que a ti

Bom: Estás a falar de educação sexual à tua filha adolescente
Mau: Ela interrompe-te constantemente
Fodido: Fazendo correcções

Bom: A tua mulher está grávida
Mau: São trigémeos
Fodido: Fizeste a vasectomia há 5 anos.


antídoto às 12:54 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007
Há muitos, muitos anos, no tempo em que ainda tudo era possível, havia um grupo de príncipes que, para além do convívio diário, se reunia quase todas as semanas em alegres festivais gastronómicos.
A vida encarregou-se de os separar, por diversos motivos e razões, mas dos confins da memória (e do meu disco rígido), fui buscar uma “receita para lanches” que um deles se deu ao trabalho de escrever e que reza assim:

Para que se possa oferecer um lanche a alegres convivas são necessários - imaginação (em doses industriais), víveres, alguns condimentos, bebidas, trabalho e jeito q.b.
Imaginação
Capacidade que existe em grandes doses quando somos crianças mas que diminui à passagem dos anos. Neste caso significa inovar na apresentação de algum “miminho” - pequeno petisco que, para um iniciado, poderá ser uma simples lata de mexilhões, anchovas ou espargos.
Víveres
Carne e/ou peixe, de preferência descongelada/o ou fresca/o – a descongelação rápida via imersão em água quente ou microondas, retira grande parte do sabor e qualidades ao produto. No caso da carne, convém ser do lado do osso ou “courato” – este tipo de carne é mais saborosa, mais barata e requer alguma mão-de-obra por parte dos convivas, existindo assim algum entretenimento extra. Fica sempre bem uma salsichinha fresca – ter em atenção que estas nunca podem ter estado congeladas, levar sal ou qualquer condimento.
No caso de peixe, convém ser um peixe “gordo”, do tipo Sardinha, Truta ou Dourada – são bastantes mais saborosos que os restantes.
Poderá também ser apresentado o fiel amigo, na forma de grelhado e muito bem regado com azeite e alho – neste caso demolhar o mesmo durante 24 horas e fazer duas mudas de água.
À parte do produto base, convém ter pão, queijo, enchidos, azeitonas e outros acepipes.
Condimentos
São a pedra de toque que faz a diferença entre o sucesso e / ou o fracasso de um lanche. Assim, é sempre necessária a presença do sal, pimenta, alho, piri-piri, massa de pimentão, ervas aromáticas para grelhados, mostarda, etc.
Bebidas
Esconder previamente todas as “reservas” e apresentar somente Murganheira ( bruto ou equivalente), cerveja ou água – ter sempre águas próprias para auxiliar a digestão (preferencialmente “Castelo” ou de igual potência).
Trabalho
Na preparação de um lanche todo o trabalho prévio conta. Passa por cortar o pão, o queijo, a preparação dos víveres, o lume, etc. – obviamente se este trabalho não for efectuado, os convivas têm que meter “mãos à obra”, embora o façam sob protesto (normalmente a fome é negra).
Jeito q.b.
Nasce com a pessoa – Dom com o qual, alguns, poucos, foram contemplados.
Notas:
A bem da sanidade mental tentar, a todo o custo, evitar oferecer um lanche.
Mas se tal não for possível deve:
Nunca esquecer a necessária louça e ferramentas de trabalho, bem como, se o lanche se realizar no Inverno, alguma lenha para a lareira.
Não esqueça que os convivas sentados comem menos.
Ter o necessário para o lanche junto do local do mesmo, caso contrário, o anfitrião será obrigado a proceder como o elevador da Nazaré.
Um lanche é um lanche e nunca devem ser oferecidos pratos muito elaborados, do género “refeição”. O lanche perfeito deve ser feito à base de grelhados.
Havendo crianças ou mulheres — o que deve acontecer só em ultima instância — são muito apreciadas pelas mesmas, coxas de galinha, salsichas frescas ou febras.
Havendo crianças, deve fornecer aos restantes convivas tampões para os ouvidos, ou em alternativa, oferecer às criancinhas um sumo no qual foram previamente dissolvidos três Valium 5 ou Xanax.
No caso de cães, eles comem de tudo.
Evitar as conversas sobre assuntos polémicos ou escaldantes como política, futebol, homossexualidade ou racismo – só contribui para aumentar a fome e o mau feitio dos convivas.
Nunca desmoralizar com as “bocas” dos convivas – eles estão ali só para comer (que nem umas bestas) e para dizer mal de tudo (desde a organização à comida).
No entanto, e como “a vingança é um prato que se serve frio”, todas as “bocas” devem ser memorizadas para que se possam retribuir os “mimos”, devidamente aplicados, quando o próximo lanche for oferecido em casa de um dos outros convivas.
Incitar, discretamente, à realização de lanches nas casas dos outros.

Ai que saudades, ai, ai…


antídoto às 10:33 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007
Esta é uma estória verídica.
Tinha ido a um bar com uns amigos e quando saímos, por volta da 1 da manhã, deparámo-nos com uma daquelas típicas noites de Inverno, com chuva batida a vento.
O Carlos ainda tinha que levar o João a casa, a cerca de 15 quilómetros da cidade e decidi ir com ele para lhe fazer companhia no regresso.
Não sabíamos ainda que o ribeiro tinha transbordado e cortado a estrada por onde circulávamos.
Naquele tempo não era bem como hoje, em que as cheias são comunicadas com antecedência e as estradas devidamente encerradas pelas autoridades.
Íamos relativamente devagar, fizemos uma curva larga à direita, entramos na recta e de imediato nos apercebemos da cheia, poucos metros à frente. O Carlos reduziu a velocidade e o carro aproximou-se devagar da água. E de repente TUM, uma batida seca e um vulto pelo ar.
Ficámos sem saber exactamente o que tinha acontecido, ninguém tinha visto nada.
Saímos do carro a correr, vimos uma motorizada caída e, meio metro para lá da zona seca, um homem a estrebuchar, de barriga para baixo e a cara dentro de água.
Nem pensámos duas vezes, corremos para ele, pegámos no senhor e trouxemo-lo para fora. Estava acordado, gemia, dizia coisas sem nexo e exalava um fedor a vinho tinto que era obra.
Tinha estado sentado na motoreta, de luz apagada, a apreciar a cheia.
Ainda não havia telemóveis, batemos à porta de uma casa próxima e pedimos para ligarem para o 115, hoje 112.
Ficámos à espera da ambulância e, entretanto, foram chegando mais carros e armou-se o estendal do costume.
Finalmente lá chegaram os bombeiros e a GNR.
A essa altura já o nosso ébrio andava, cambaleante, a contar a aventura a toda a gente, pelo que tiveram que pegar nele e sentá-lo para lhe tratarem das mazelas.
E foi nesse momento que perguntou em voz bem alta: - Então e o outro?
O outro??!! Havia outro??!!
Pânico, toda a gente começou desesperadamente à procura do outro.
Iluminados pelos faróis dos carros, ajudados por lanternas e isqueiros, vimos as valetas, entrámos na água barrenta, vasculhámos tudo, ninguém encontrou o outro.
O meu amigo Carlos já se imaginava com a vida destruída e apertava a cabeça entre as mãos, completamente desalentado, enquanto a GNR pedia reforços e projectores, via rádio.
Tiritavamos de frio e de nervos quando, de súbito, ouve-se o homem: - Ai, não! Afinal deixei-o lá atrás…
Tive que dar um salto e segurar o Carlos.
Mas não lhe tapei a boca...


antídoto às 18:57 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
Ao contrário da maioria, sou da opinião que não somos um país de poetas, mas sim um país de gente muito ‘profunda’ que acha que basta despejar para o papel qualquer sentimento mais intenso para sair poema.
E, normalmente, só o fazem por dois motivos: paixão ou decepção amorosa.
Temos assim o éter atulhado de pseudo poemas que não acrescentam nada a nada.
É um facto que daí não advém mal ao mundo e toda a gente é livre de se exprimir como bem lhe apetecer, tal como eu ao descarregar as minhas baboseiras neste blog.
Mas confesso que, gostando de muita poesia, não tenho pachorra para a maioria das coisas que leio.
E vem isto a propósito de uma conversa com uma amiga ‘poetisa’ em que caí na asneira de dizer que escrever poesia assim é fácil.
Ficou sentida e claro que ouvi das boas, que tenho a mania, que não percebo nada de poesia, enfim, uma série de desabafos que terminaram com um «sempre quero ver».
Com essa é que ela me lixou a mim e mais à minha grande boca.
Espero que quem entende de poesia não se prive de me pôr no meu lugar.
E aqui vai disto.

Vejo nos teus olhos promessas infinitas
Deixo-me inundar pelo teu amor perfeito
Navegando cego nas ondas do teu corpo
Onde encontro terras que a mim são prometidas

Montes suaves de onde avisto o mar sereno
Vales férteis que baptizo com os meus beijos
Exploro em ti os contornos porque anseio
As veredas que me levam ao teu centro

Fixo-me em ti quando sei que vou perder-me
E a natureza explode em convulsões gemidas
Corro para uns braços que não têm tamanho
Vejo nos teus olhos promessas infinitas


antídoto às 18:56 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Domingo, 21 de Janeiro de 2007
Tinha eu os meus 15 ou 16 anitos e decidi ir ao cinema com os amigos.
Era um Domingo à tarde e já não me recordo de qual era o filme, apenas que era um daqueles que toda a gente quer ver.
Naqueles tempos os filmes chegavam à província com um ou dois meses de atraso relativamente à sua estreia, em Lisboa, daí que combinámos ir bem cedo para evitar a fila na bilheteira.
Fomos dos primeiros a adquirir as entradas e ficámos na rua, a conversar e a fazer tempo.
Entretanto a fila ganhou uma dimensão considerável, pelo que tivemos que a atravessar para entrar.
Eu estava a fumar, pedi licença, mas, quando ia a passar, um recuo súbito da pessoa à minha direita fez-me tocar com o borrão do cigarro na gravata de seda do senhor à minha esquerda.
Fiquei aflito, pedi mil desculpas, mas o homem foi simpatiquíssimo. Descansou-me, disse-me que são coisas que acontecem, aconselhou-me a deixar de fumar, enfim, um gajo porreiro.
Lá entrei e vi, descansadamente, a primeira metade do filme.
No intervalo saímos e estávamos a discutir, animadamente, as ocorrências, quando vejo o senhor da gravata a aproximar-se, acompanhado por dois polícias.
Chegam junto a nós, ele aponta-me e diz, “foi este aqui”.
Fico aparvalhado e acagaçado, não sabia o que se estava a passar. Notem que naquele tempo o respeito pelos mais velhos em geral e pela autoridade em particular era uma regra imposta pela educação. E, no que respeita à autoridade, o respeito era acompanhado por um temor reverente.
Comecei a gaguejar que tinha sido sem querer, que pagava a gravata, mas um dos polícias agarrou-me por um braço, mandou-me calar e perguntou com voz dura:
- Roubaste o alfinete de gravata deste senhor?
- Roubar??!! Não, não, eu não roubei nada, não fui eu.
- É melhor p’ra ti confessares já.
Imaginem a vergonha e humilhação, um miúdo agarrado pela polícia no átrio de um cinema cheio de gente, que nos começou a rodear para melhor apreciar o segundo filme da tarde.
Fui quase arrastado para a rua, metido num carro-patrulha e levado para a esquadra.
Aí chegado, empurraram-me com brutalidade para dentro de uma sala, onde fui revistado e interrogado como se fosse um qualquer malfeitor, com um ou dois sopapos à mistura.
- Confessa que é melhor!
- Não fui eu!
- A quem é que passaste o alfinete?
- Não passei nada, não roubei nada.
- Vais parar a um reformatório que até te lixas!
Já estava quase a desmanchar-me a chorar quando entra um oficial mais bem formado (ou será que era o polícia bom, como se vê nos interrogatórios dos filmes?) que manda os outros saírem, pede que me dêem um copo de água, me acalma e começa a repetir-me as perguntas, só que desta vez de uma forma delicada.
Passados alguns minutos manda chamar o senhor da gravata, reconfirma toda a estória e, num dado momento, pergunta-lhe se tem a certeza que tinha posto o alfinete, antes de sair de casa.
O homem confirmou que sim, que o alfinete era de ouro, tinha sido um presente da falecida esposa e que, tal como as duas alianças que usava na mão esquerda, era um acessório de uso diário, nunca saia de casa sem ele.
Mas, depois de alguma insistência, lá se decidiu a ligar para casa.
- Está lá?! É o pai, faz-me um favor filha, vai ao meu quarto e vê se lá está o meu alfinete de gravata.
Passado um minuto desligou e olhou para mim com cara de culpa.
- Ai desculpa, não sei como é que isto aconteceu…
Agora foi a vez dele de ouvir das boas, do polícia bom. Fui acalmando enquanto ouvia, deliciado, o verdadeiro raspanete que o homem estava a levar. Mas de repente apercebi-me que aquilo ia ficar por ali mesmo, lembrei-me dos olhares acusadores no cinema, do susto, da humilhação e cheguei-me à frente.
- Desculpe, senhor guarda, mas agora sou eu que quero apresentar uma queixa, fui enxovalhado, envergonhado, isto não fica assim.
Claro que me tentaram demover, mas quanto mais pensava mais furioso ficava e não cedi.
Finalmente o homem puxa da carteira, saca de uma das antigas notas de 1.000 escudos e diz que lamenta muito, que pede desculpa, mas que espera poder ressarcir-me do embaraço.
Ainda fiquei mais furioso, então o sacana faz-me passar por aquela vergonha e agora espera comprar-me com mil paus?! Disse-lhe na cara que a gracinha ia sair-lhe muito mais cara.
Juntou-se um coro de gente a aconselhar-me a deixar aquilo assim mesmo, mas eu estava decidido. O homem, vendo a vida a andar para trás, vai tirando notas da carteira e, finalmente, acena-me com dez milenas à frente dos olhos.
Meus amigos, eu sei que é triste, mas 10 contos naquele tempo?!
Era muito dinheiro e confesso que já só pensava em tudo o que poderia comprar e fazer com ele. Lá estiquei a mão para o dinheiro mas… nunca tive sorte nenhuma.
Foi aí que bati com o braço na mesinha de cabeceira e acordei.


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