Este assunto já nem vende papel por aí além, mas não deixa de ser caso merecedor de alguns estudos mais aprofundados.
Por isso aqui fica a minha proposta aos especialistas:
a) A forma sensacionalista como a imprensa mundial despeja estes assuntos e o júbilo (invejoso e vingativo?) com que a populaça os devora;
b) O selo de verdade absoluta com que o comum dos mortais timbra tudo o que a imprensa arrota;
c) O facto indesmentível de que é impossível que alguém menos honesto possa ser violado;
d) A beleza poetica dos casamentos abertos que permite assumir sexo com 3 mulheres, como alibí relativamente à suposta violação;
e) O homem em si, que aos 62 anos continua a esfarrapar a torto e a direito e de forma "brutal". Quem sabe se, através dele, não inventam um tratamento definitivo para a disfunção eréctil. ![]()
Hoje apetece-me comentar algumas das 'coisas' ultimamente mais badaladas no nosso querido país.
Mourinho Pinto Marinho Pinto - Gosto dele. Aprecio a coragem e a personalidade forte. Acho que diz algumas verdades incómodas que precisam de ser ditas. Mas a forma como o faz, aquele jeitinho truculento, desabrido e com trejeitos de ditadorzinho sul-americano, dá cabo do tudo. Um bastonário da ordem dos advogados tem que ter pose institucional e lutar pela união da classe, não pode funcionar como homem-bomba.
Manuela Moura Guedes - Lembro-me dela em nova, era uma miúda gira, cheia de genica e ambição. Os anos passaram e tornou-se naquela coisa triste. Não creio que tenha o conhecimento profundo dos factos de que acusa semanalmente quem lhe apetece. Não vejo ali jornalismo de investigação, aquilo funciona como os tablóides da pior espécie, é o jornalismo pimba em toda a sua plenitude. Cá entre nós nem me parece muito inteligente. Han? Estão-me a dizer que sim. Então porque é que a gente não nota?
Europeias - Gosto! Também aprecio as americanas do norte, do centro e do sul. E não afasto as africanas, as orientais... Han? Ah, ok, o assunto era a campanha para o Parlamento Europeu.
Alguém já viu? Pergunto-me se algum dos candidatos conhecerá alguma coisa da agenda europeia e se sabe o que está em causa. Se sim, porque não falam disso, porque não apresentam o seu projecto, o que pensam poder fazer e como.
Mas, enfim, é a politicazinha à portuguesa, vai-se a umas feiras, dão-se umas berlaitadas nos adversários e pronto, está feito.
Querem então que eu contribua para os pôr num poleiro, apenas porque sim, porque tem que ser ou porque simpatizo com o Benfica, digo, com o partido x.
Não, ando cansado, esta gente não merece que me incomode sequer em votar em branco. Voto no maior partido nacional, a abstenção.
Mais um movimento que merece atenção, pela filosofia e pela música.
Espreitem.
- Ainda bem que não somos pássaros - disse ela de repente.
- Então porquê?
- Senão, tinhas bico!
E soltou-se o riso...
E onde é que isto nos fez chegar? Ao ponto em que alguém que diz “destroque-me pra cigarros faxavor ” pode vir a ser professor(a) das nossas crianças.
A Joana, em resposta à pergunta em aberto no último post, mandou-me este texto fantástico de José Luís Peixoto.
Um rapaz que eu conheço
Eu conheço um rapaz, mais ou menos da minha idade, que sabe ser feliz. Ninguém tem explicação para esta condição altamente fora do normal, altamente improvável. Ele tem três irmãos e todos eles são pessoas comuns, iguais a milhões, biliões de outras. Quanto estão zangados, dizem palavras de que se arrependem. Quando estão desiludidos, vê-se nos seus rostos. Quando estão muito tristes, choram. Já o rapaz que sabe ser feliz nunca diz palavras de que se arrepende, nunca se vê o desalento no seu rosto, nunca chora. O seu rosto é o seu sorriso. Quando chega, sorri. Quando se despede, sorri. Fica muito tempo a ouvir as pessoas que querem falar com ele. Há muitas pessoas que gostam de falar com ele. Ele ouve nos momentos em que as pessoas querem que ele ouça. Ele faz perguntas nos momentos em que as pessoas querem sentir que ele está interessado. Ele sorri durante o tempo todo da conversa. Muitas vezes, as pessoas contam-lhe histórias tristes. Contam-lhe coisas más que fizeram, porque sabem que ele entenderá. Contam-lhe histórias de coisas que aconteceram: maldades e coisas más. Ele ouve porque gosta verdadeiramente de ouvir. Ele faz perguntas porque sente curiosidade verdadeiramente. Ele sorri sempre. Quando as pessoas lhe falam de coisas más, ele não sorri, mas ele sorri. Os seus lábios não têm a forma de um sorriso, mas os seus olhos sorriem. Os seus olhos não sorriem, mas têm um brilho que é um sorriso. Quando estão muitas pessoas e ele chega, passa pouco tempo e todos sorriem com ele. Os mais amargos sorriem. Os mais invejosos sorriem. Os mais perversos sorriem. Os funcionários de repartições, os poetas, os advogados sorriem. Quando se despede, sorri e o seu sorriso permanece no rosto das pessoas durante o resto do dia. Contam-se muitas histórias sobre ele. Diz-se que, quando ele põe as mãos em concha, cresce uma bola de luz dentro das suas mãos. Diz-se que, quando ninguém está a ver, ele entorna essa luz sobre a cabeça das pessoas. Eu não duvido dessas histórias. Nunca vi essa bola de luz, nunca ninguém a viu, mas acredito. O seu sorriso é a sombra da sua alegria. Quando ele sorri, existe no seu interior uma alegria que é o sol. Quando ele sorri, o sol inteiro está apertado, quase a explodir, dentro dele. O seu sorriso tem muitas formas. É terno, entusiasmado, meigo, vivo, brando. As formas do seu sorriso são as formas exactas da alegria que existe dentro dele. Ele é sincero. Sabe ser feliz e, por isso, ele é feliz.
Contam-se muitas histórias sobre a origem da sua felicidade. Ninguém sabe qual é a verdadeira. Cada pessoa conta uma história diferente. Às vezes, as pessoas discutem sobre isso. Nunca chegam a uma conclusão. Se uns dizem que foi um vírus, outros dizem que nasceu assim. Às vezes, as pessoas zangam-se umas com as outras por causa disso. Às vezes, deixam de falar umas com as outras por causa disso. Fazem as pazes no momento em que voltam a encontrar o rapaz. Se uma dessas pessoas encontrar o rapaz de manhã, se a outra encontrar o rapaz à tarde, ficam com um sorriso grande para o resto do dia. Se depois disso se encontrarem, fazem as pazes. Uma das pessoas ficará a repetir desculpas para a outra que, ao mesmo tempo, repetirá desculpas também. Poucos horas depois de nascer, quando a mãe estava na maternidade, com os cabelos sobre a almofada, sem força, quando o pai estava de pé ao lado da cama, quando a enfermeira chegou com ele ao colo, quando a mãe o aceitou nos braços e fez com os lábios a forma de beijinhos, quando o pai se inclinou para o ver melhor, quando os pais o consideraram seu pela primeira vez, a mãe disse: Olha, parece que está a sorrir. Alguém me contou que, depois dessa hora, os seus pais sorriram durante o resto do dia. As pessoas que eles encontram sorriram também durante o resto do dia, assim como sorriram as pessoas que essas pessoas encontram. Aquele sorriso alastrou-se pelo mundo como se o varresse e, na última hora desse dia, todas as pessoas vivas sorriram. Ninguém sabe ao certo se essa história é verdadeira, mas não deixa de ser uma boa história.
A verdade absoluta é que esse rapaz que eu conheço sabe ser feliz. Já houve gente a pedir-lhe que explicasse a felicidade. Ele sorriu e não soube responder. Aqueles que lhe perguntaram sorriram e aceitaram essa resposta. Talvez ponha as mãos em concha, talvez cresça uma bola de luz dentro das suas mãos. Porque não? Eu e toda a gente que o conhece muitas vezes deixámos que as nossas mãos ficassem em concha durante momentos. Não resultou. Eu e toda a gente que conhece esse rapaz achámos que não conseguíamos. Duvidámos. Sofremos por duvidar. Depois, entendemos. As mãos em concha, uma bola de luz a crescer dentro das mãos. Faltava o mais importante. Eu e todos, em algum momento das nossas vidas percebemos que não basta formar uma concha com as mãos, é preciso sorrir. Depois, se olharmos bem, veremos como cresce uma bola de luz. Natural, incandescente, limpa. Quando ninguém está a ver, podemos entorná-la sobre a cabeça de alguém. O seu sorriso ensinar-nos-à sorrir ainda mais.
José Luís Peixoto, HISTÓRIAS RARÍSSIMAS, pela Associação Nacional de
Doenças Mentais e Raras
Quinta-feira, final de tarde, o trânsito faz-se lentamente no centro da cidade, num pára-arranca continuado.
De repente um vulto atravessa-se à frente do carro e, antes que me dê conta, uma jovem deficiente mental abre a porta do lado direito, senta-se e, sem olhar para mim, ordena: - Leva-me à minha rua!
Olho-a, entre perplexo e divertido, deve ter vinte e poucos anos e continua a fixar o pára-brisas.
- Sabes onde é a tua rua?
- Sei, vai por aí!
E fomos. Circulei por ruas desconhecidas, seguindo as indicações dela.
Notando que a fitava, olhou-me uma única vez nos olhos e 'descansou-me' - Não tenhas medo que eu não faço mal a ninguém.
Não tinha, estava a gozar aquele momento surpreendente e a gostar.
Não se enganou na indicações, em menos de 10 minutos deixei-a em frente de um edifício com bom aspecto, despedindo-se com um "boa semana".
Assim que se fechou a porta, a criança de 5 anos que ia atrás, até aí silenciosa, perguntou: - Quem era?
Nem pensei na resposta, saiu-me "uma pessoa deficiente".
- O que é uma pessoa deficiente?
(...)
Música: Bobby McFerrin - Dont Worry - Be Happy
Faltam uns minutos para as 9 da manhã de quinta-feira quanto entro na pastelaria e me encosto ao balcão para o primeiro café do dia.
A televisão inicia um bloco noticioso com a passagem do Futebol Clube do Porto à fase seguinte da Liga dos Campeões.
Muitos dos homens, que se alinham ao meu lado, viram-se e dão um ou dois passos no sentido do televisor, para melhor verem e ouvirem a reportagem.
Segunda notícia: "A Alemanha acorda em estado de choque, com o massacre de Waibligen...".
Todos viram costas e voltam a dedicar-se ao cafezinho, comentando o jogo do F.C.P.
A coisa foi tão evidente que me deixou perplexo.
Geralmente os massacres nas escolas são sinónimo de audiências, o povo gosta. Todos debitam comentários mais ou menos banais, ninguém pensa muito profundamente no assunto, enfim, o ideal para conversa de café. Mas desta vez havia futebol e ele ganhou por goleada.
Será que andamos assim tão alienados que já nada que não nos diga directamente respeito nos afecta?
Vivemos a correr, trabalhamos demais, seduzimos demais, conquistamos demais, ocupamo-nos demais, preocupamo-nos demais, sempre insatisfeitos, querendo sempre mais e mais.
Esquecemos o essencial. Se não esquecemos adiamo-lo, porque ainda somos novos e temos tempo.
Temos? Alguns não. O coração pára inesperadamente e a corrida acaba.
Quando acontece com alguém que brincou connosco em criança, partilhou sonhos na adolescência e projectos profissionais na vida adulta, fica-nos um sabor metálico na boca.
A sensação é de desalento. Perguntamo-nos se correr não será uma inutilidade e se não devemos reflectir no que nos é verdadeiramente importante.
'Voltar a casa' e reaprender a viver os sabores da vida...
Música: Nancy Lamott - The secret of life
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